quarta-feira, 25 de maio de 2011

A RELAÇÃO AFETIVIDADE-APRENDIZAGEM NO COTIDIANO DA SALA DE AULA: ENFOCANDO SITUAÇÕES DE CONFLITO

        "Penetrar no universo escolar, tão presente em nossas vidas, porém tão difícil de desvendar, onde não há caminhos definidos, mas que vão sendo construídos no caminhar, revela-nos a noção de que não podemos vê-lo realmente como é, vemos o que podemos e conseguimos ver, o que nos permite nossos conhecimentos e concepções.
Assim, à procura de respostas, é possível que mais indagações tenham sido provocadas do que respostas encontradas.
O sujeito constrói-se a partir das relações entre um mundo externo, estruturado pela cultura e pelas condições históricas, e por um mundo interno, não somente no aspecto cognitivo, mas afetivo, que envolve desejos, pulsões, sentimentos e emoções, portanto, é extremamente importante aproveitar essas relações na prática educativa.
Educar é ensinar a olhar para fora e para dentro, superando o divórcio, típico da nossa sociedade, entre objetividade e subjetividade. É aprender além: saber que é tão verdade que a menor distância entre dois pontos é uma linha reta quanto que o que reduz a distância entre dois seres humanos é o riso e a lágrima (Alencar, 2001, p.100).
A afetividade é um conceito amplo, integra relações afetivas como a emoção
(medo, cólera, alegria, tristeza), a paixão e o sentimento, inerentes ao processo ensinoaprendizagem.
Segundo a teoria walloniana, emoção e cognição são dois aspectos inseparáveis no desenvolvimento e se apresentam de forma antagônica e complementar.
Na sala de aula, espaço social de convivência diária, foi possível perceber movimentos que caracterizam os conflitos eu-outro e que se constituem em oportunidades de questionamentos, reflexão e conscientização, e outros que apenas desgastam a relação professor/aluno/conhecimento. Mas, também, movimentos em que as interações gestadas na relação eu-outro são baseadas na importância do eu e do outro, no comprometimento e no diálogo.
A escola constitui-se num espaço essencialmente educativo, cuja função principal é a de mediar o conhecimento, possibilitar ao educando o acesso e a reconstrução do saber. Essa função está imbricada inexoravelmente às relações, pois a transmissão do conhecimento se dá na interação entre pessoas. Assim, nas relações ali estabelecidas, professor/aluno, aluno/aluno, o afeto está presente. Um dos componentes essenciais para que esta relação seja significativa e represente uma parceria no processo ensino-aprendizagem, é o diálogo.
Enfatizar o diálogo como imprescindível na relação professor/aluno não significa, portanto, desconsiderar a diretividade necessária ao processo ensinoaprendizagem ou a má interpretação de que o bom professor é “o bonzinho”, “o que permite tudo” ou “o que entende o aluno em todas as suas atitudes”. A relação professor/ aluno, por sua natureza antagônica, oferece riquíssimas possibilidades de crescimento
(Almeida, 2001, p.106).
Os conflitos oriundos desta relação desigual podem e devem ser aproveitados, pois resolvê-los pressupõe o exercício constante de equilíbrio entre razão e emoção.
Devido à natureza paradoxal das emoções, há um antagonismo entre as mesmas e atividade intelectual. É possível perceber que quando ocorre a elevação da temperatura emocional o desempenho intelectual diminui, impedindo a reflexão objetiva, e quando a atividade intelectual está voltada para a compreensão da emoção, seus efeitos são reduzidos. O desenvolvimento deve conduzir à predominância da razão, sem que a emoção esteja excluída.
Em se tratando de adolescentes é importante que a relação afetiva seja mais cognitiva, que se concretize considerando o outro como legítimo outro na convivência
(Maturana, 1999, p.18), ou seja, que a relação professor-aluno se dê como uma parceria afetivo-cognitiva, evidenciada através de uma linguagem onde haja espaço para o elogio, o incentivo e mesmo para a repreensão necessária, direcionada ao outro como possibilidade de reflexão, conscientização e formação. É essencial que esta relação esteja pautada no interesse pelo sujeito singular, gestado no coletivo, e principalmente pela crença na capacidade do ser humano.
Essa relação é uma via de mão dupla, professor/aluno, aluno/professor, que faz da sala de aula uma teia de valores, necessidades, aspirações e frustrações que se entrecruzam e portanto, se influenciam reciprocamente. Por isso, tanto professor quanto aluno são responsáveis por dar o tom a essa relação, mas é imprescindível que compreendamos que nós professores somos maestros nessa sinfonia, quer seja por nossa formação, experiência ou por nossa diferença em relação ao aluno, sujeito em formação, em busca de identidade.
Em cada situação vivenciada na pesquisa, quer seja através dos conflitos, das palavras anunciadas, dos gestos articulados ou das interações vividas, apontaram para o reconhecimento de que no processo de construção do conhecimento, de apropriação do saber são essenciais as relações entre afetividade e cognição. O sujeito não aprende se não se sente mobilizado ou estimulado para o conhecer, se não for afetado por ele.
A relação afetiva entre os sujeitos envolvidos no processo ensinar-aprender, o exercício do diálogo, o fazer compartilhado, o respeito pelo outro, o estar aberto, o saber escutar e dizer, configuram-se como elementos de fundamental importância para a aprendizagem.
É imprescindível, então, que no contexto escolar trabalhemos a articulação afetividade-aprendizagem nas mais variadas situações, considerando-a como essencial na prática pedagógica e não a julgando como simples alternativa da qual podemos lançar mão quando queremos fazer uma “atividade diferente” na escola. Essa articulação deve ser uma constante busca de todos que concebem o espaço escolar como locus privilegiado na formação humana.
Os conhecimentos são construídos por meio da ação e da interação. O sujeito aprende quando se envolve ativamente no processo de produção do conhecimento, através da mobilização de suas atividades mentais e na interação com o outro. Portanto, a sala de aula precisa ser espaço de formação, de humanização, onde a afetividade em suas diferentes manifestações possa ser usada em favor da aprendizagem, pois o afetivo e o intelectual são faces de uma mesma realidade – o desenvolvimento do ser humano."


A RELAÇÃO AFETIVIDADE-APRENDIZAGEM NO COTIDIANO DA SALA
DE AULA: ENFOCANDO SITUAÇÕES DE CONFLITO

PANIZZI, Conceição Aparecida Fernandes Lima

2 comentários:

  1. Que texto interessante Rosangela! Gostei muito do seu blog que está sempre atualizado além de trazer questões muito pertinentes.
    Abraço

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  2. Oi Amiga, encontrei seu Blog por acaso na net, estava procurando uma foto de Arceburgo e apareceu você ��
    Legal, gostei e tuas fotos adorei, deu saudades de tudo!
    Aproveitei e adicionei seu mail e seus dados na minha agenda de celular.

    Beijos em tu, em sua mãe e filhos.
    Doris.
    Com muitas saudades de tudo aí. ��

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